A ciência do toque

Anatómica e fisiologicamente, toque é o conjunto de sensações tácteis que surgem da estimulação sensorial, em primeiro lugar da pele, mas também de estruturas mais profundas do corpo, como os músculos.

A pele é um órgão surpreendente. Tem muitas funções, mas a mais notável, nesta área específica, é sua função no toque. A pele é o maior órgão sensitivo do corpo. Por fora, somos, sempre, tocados, primeiro, através da nossa pele. Muitas estruturas internas somáticas de tecido mole (por exemplo, músculos e tecido conjuntivo) e estruturas viscerais (como pulmões, coração e órgãos digestivos) projectam sensações para a pele. O sistema nervoso autónomo, que regula a homeostase visceral e química do corpo, é muitíssimo sensível à estimulação da pele em apoio ao bem-estar. O humor (a maneira como a pessoa se sente) muitas vezes é reflectido na pele. Coramos de embaraço, ficamos vermelhos de excitação ou pálidos de medo.

As partes anatómicas que compõem a pele - a epiderme (camada superior), a derme (camada interna) e os tecidos conjuntivos entrelaçados nestas camadas - e a rede compacta de nervos recebem e retransmitem informação do sistema nervoso central. Essa vasta rede associa-se à complexa rede de vasos circulatórios que chegam à pele. No entanto, mesmo na sua complexidade, a anatomia e a fisiologia da pele não podem explicar a experiência do toque. De alguma maneira, a pressão, a vibração, a temperatura e o movimento muscular que excitam a pele animam-nos com sensações e experiências de prazer, ligação, alegria, dor, tristeza e saudade. Precisamos ser tocados para sobreviver. O toque é uma fome que precisa de ser saciada, não apenas para o bem-estar, mas para a própria essência da nossa sobrevivência. Cada vez mais, somos elucidados para a importância do toque ao estudar muitos grupos diferentes de pessoas, inclusive bebés, pessoas idosas, pessoas sob episódios de stress e pessoas muito doentes. A pesquisa apoia a crença de que tocar de maneira estruturada é uma necessidade muito importante, se não absoluta, de todos os seres vivos.

A tecnologia científica possibilitou-nos descrever algumas respostas fisiológicas ao toque, tais como as mudanças na concentração de hormonas, alteração na actividade dos sistemas nervosos central e periférico e na regulação dos ritmos do corpo. Entretanto, mesmo essa explosão de informação é insuficiente para nos ajudar a compreender a experiência do toque.

Com todas as interpretações científicas, a experiência do toque é muito mais do que a soma das suas partes.

A mão humana

A mão humana é capaz de imensa destreza e sensibilidade, embora também possua força e capacidade funcional. Ao contrário de qualquer outra espécie, os seres humanos têm a enorme vantagem de possuírem um cérebro avançado, que é capaz de controlar uma mão incrivelmente versátil. Duas principais funções, sensitiva e motora, podem ser imputadas à mão.

A palpação tem um papel fundamental no exame da maioria das funções do corpo, sobretudo na avaliação e tratamento de distúrbios musculo-esqueléticos. Informações sobre o contorno, tónus, temperatura, textura, sensibilidade, tensão, aderências, alterações fibróticas, entre outras, ao nível da pele e de músculos e estruturas afins, superficiais e profundas, são recolhidas através da palpação.

O que é a massagem ?

A massagem é o “conjunto de manobras manuais ou mecânicas, executadas de forma metódica, no corpo ou numa parte dele, para efectuar uma mobilização dos tecidos superficiais e musculares, com finalidade terapêutica, higiénica e desportiva” (Valdivia, 1998).

A massagem pode “induzir o relaxamento e, no contexto terapêutico, prevenir a contracção muscular, tensão e fadiga, sendo também usada para melhorar a circulação sanguínea e linfática” (Grealish e Lomasney: McCabe, 2001).

A Massagem pode ainda ser definida como um “termo usado para designar certas manipulações dos tecidos moles do corpo; estas manipulações são efectuadas com maior eficiência com as mãos e são administradas com a finalidade de produzir efeitos sobre os sistemas nervoso, muscular e respiratório e sobre a circulação sanguínea e linfática local e geral.” (Beard, 1952)

Para a realização de massagem devem respeitar-se algumas condições básicas, tais como: conhecimentos anatómicos, fisiológicos e técnicos; higiene; meio lubrificante (pó, creme ou óleo); ambiente adequado (som, cor e aroma); posicionamento e exposição do cliente; posicionamento do massagista e aspectos éticos (Domenico e Wood, 1998).

A massagem pode conduzir a profundos efeitos na saúde do indivíduo (mecânicos, fisiológicos, psicológicos e terapêuticos), sendo que o corpo e a mente devem ser considerados como um todo.

A palavra "massagem" deriva de várias fontes. A raiz latina massa significa tocar, manusear, apertar ou amassar. A raiz árabe mass ou mass'h é traduzida como "pressionar suavemente".

Um pouco de história ...

Tempos antigos
As culturas mais antigas praticavam formas de toque de cura. Muitas vezes, um líder cerimonial, tal como um curandeiro, um sacerdote ou xamã, era escolhido para realizar rituais de cura. Com frequência, os métodos de cura usavam ervas, óleos e formas primitivas de hidroterapia. Arqueólogos encontraram muitos artefactos pré-históricos representando o uso de massagem para cura e propósitos cosméticos.
Alguns especulam que a massagem era usada para o alívio da dor e incorporou conceitos de contra-irritação, tais como esfregar, cortar e queimar a pele, como parte do processo. A massagem pode ter sido usada como procedimento de limpeza, junto com o jejum e o banho, em preparação para muitos rituais tribais.
Na China, a massagem tem sido conhecida por dois nomes. Anmo ou amma, o nome mais antigo, significa pressão-fricção. Tui-na, de origem mais recente, significa empurre-puxe. Esses métodos chineses eram administrados fazendo-se massagem ou esfregando todo o corpo com as mãos e usando-se uma leve pressão e tracção em todas as articulações.
A prática da acupunctura envolvia a estimulação de pontos específicos ao longo do corpo, em geral com a inserção de minúsculas agulhas sólidas mas, também, era usada a massagem e outras formas de pressão. Tais práticas, eram, ainda, encontradas na medicina tradicional dos esquimós e da África, na qual se usavam pedras afiadas para raspar a superfície da pele.
O conhecimento da massagem e das suas aplicações já era bem estabelecido na medicina chinesa na época da dinastia Sui (589-617). A massagem faz parte da vida, na Índia, desde há mais de três mil anos. Como a acupuntura chinesa, o Hatha yoga, que se desenvolveu na Índia, reapareceu em formas modernas de terapia corporal, com os seus conceitos energéticos de prana, chakras e equilíbrios humorais.
Os antigos egípcios deixaram obras de arte que mostravam a massagem do pé. Antes de participarem nos jogos olímpicos, os atletas gregos, eram submetidos a tratamento de fricção e unção com areia. O uso do toque, como um modo de cura, está registado nos escritos das tradições dos hebreus e cristãos. A "imposição de mãos" era especialmente proeminente no cristianismo do primeiro século. A massagem de corpo inteiro com óleos remonta às práticas judaicas. Os antigos judeus praticavam a unção para benefícios rituais, higiénicos e terapêuticos.
O antigo povo Maia da América Central, os Incas da América do Sul e outros povos nativos do continente americano também usavam métodos de massagem e de manipulação das articulações.
Hipócrates foi o primeiro médico grego a descrever especificamente os benefícios médicos da unção e da massagem, junto com as propriedades químicas dos óleos usados para esse propósito. Ele chamou a sua arte de anatripsis, que significa "friccionar". Disse, sobre essa arte: "O médico deve conhecer muitas coisas e, de maneira segura, a anatripsis, pois coisas que têm o mesmo nome nem sempre têm os mesmos efeitos, já que esfregar pode ligar uma articulação que está solta demais ou soltar uma articulação que está dura demais". Os métodos de Hipócrates sobreviveram bem até à Idade Média. Muitas técnicas similares a esses métodos, em especial os princípios de tracção e de alongamento, ainda estão em uso hoje em dia.
Claudius Galenus ou Galeno, outro médico grego, contribuiu com muito material escrito, para a antiga medicina manual, inclusive com muitos comentários sobre os métodos de Hipócrates.
A massagem chegou aos romanos através dos gregos. Júlio César era "beliscado no corpo todo" diariamente para aliviar as suas neuralgias e prevenir ataques epiléticos. Aulus Cornelius Celsus, médico romano, teve o crédito de ter compilado uma série de oito livros que abrangia um conjunto de conhecimentos médicos da época. Sete dos livros, tratam de maneira exaustiva, da prevenção e da terapia com o uso do esfregar, do exercício, do banho e da unção.

O renascimento moderno da massagem

Per Henrik Ling desenvolveu a massagem sueca, propondo programa integrado para o tratamento da doença, utilizando movimentos activos e passivos juntamente com a massagem. Afirma-se que o interesse de Ling nesses métodos foi animado por uma artrite no seu próprio cotovelo. Desenvolveu um sistema de massagem que usava muitas das posições e dos movimentos da ginástica sueca. Combinando esses movimentos com exercícios, ele conseguiu curar o seu cotovelo. O programa de Ling era baseado no conhecimento recém-descoberto da circulação do sangue e da linfa (é interessante notar que os chineses utilizavam estes métodos desde há séculos). Com o apoio de clientes influentes, Ling recebeu uma licença para praticar e ensinar seu método e fundou o Royal Gymnastic Central Institute. O foco primário do sistema de Ling era na ginástica aplicada ao tratamento da doença.
O médico holandês Dr. Jo-hann Mezger (1839-1909), tem o crédito de ter levado a massagem para a comunidade científica. Ele apresentou a massagem a colegas médicos como uma forma de tratamento médico e os termos franceses effleurage e pêtrissage, além de tapotagem, começaram a ser utilizados pelos seus seguidores, embora referências históricas não expliquem por que foram escolhidos termos franceses.
A popularidade da massagem começou a crescer e os médicos procuraram um terreno comum entre os seus métodos e a massagem. A experiência bem-sucedida e o testemunho de pessoas distintas, em especial, monarcas e diplomatas, favoreceram a imagem da massagem e aumentaram a aceitação pública e médica.
Revistas leigas e jornais médicos publicavam manuscritos sobre massagem. Muitos médicos estudavam a massagem com um forte interesse científico nos seus efeitos. Actualmente, a massagem é estudada e analisada sobretudo através da obra da Dra. Tiffany Field, no Instituto de Pesquisa do Toque, na Escola de Medicina da Universidade de Miami e por estudos realizados com subvenção dos Institutos Nacionais de Saúde.

1960 até aos nossos dias

O renascimento mais recente da massagem começou por volta de 1960. Aumentou o reconhecimento de doenças crónicas que são resistentes ao tratamento cirúrgico ou com drogas. Nesses casos, parece que não funciona nem o conceito de tratamento agudo nem uma abordagem de solução única. Teve de ser desenvolvida uma maneira mais complexa de ver e tratar essas doenças, e a massagem é uma abordagem que se tem mostrado eficiente no decorrer do tempo.
O movimento humanista, que começou durante os anos de 1960, espalhou-se para a medicina e o sistema de saúde aliado. Preocupações em relação aos benefícios do toque levantaram de novo a questão da legitimidade e do valor da massagem só pelo seu uso psíquico. Mais tarde, o movimento Esalen e a psicologia da Gestalt inspiraram psicólogos e psicoterapeutas a explorar a massagem e outras terapias de movimento. Muitos estudos controlados em clínicas sobre medicina, enfermagem, fisioterapia e psicologia inspiraram mais interesse académico e clínico na massagem.
Em 1960, um maior conhecimento médico de que a falta de exercício contribuía para doenças cardiovasculares e outras enfermidades levou o presidente John F. Kennedy a enfatizar a boa forma física, sobretudo para as crianças. Esse novo interesse transformou-se no movimento de forma física do final dos anos de 1960 e levou as ciências de saúde a um movimento em direcção à medicina preventiva. Os benefícios do desporto foi redescoberto e, como resultado disso, revelou-se a literatura histórica no campo da massagem, como o livro de Albert Baumgartner, Massage in athletics, que discutia o relacionamento entre a massagem e o exercício e o valor da massagem no condicionamento e no controle do stress.
Durante os anos 1970 e 1980, a acupressão recebeu mais atenção do que qualquer outro método de trabalho de corpo. A literatura médica, de fisioterapia e de enfermagem examinou-a a fundo na base de experiências clínicas controladas. Nos escritos sobre enfermagem e medicina de reabilitação, surgiu um conjunto, de conhecimentos associados aos benefícios da massagem na prevenção e no tratamento das úlceras de decúbito e no tratamento global da pressão sanguínea e do ritmo cardíaco em pessoas que sofrem de manifestações agudas e crónicas de doença cardiovascular.
Richard van Why disse: "Foi no campo da pesquisa sobre dor e do tratamento da dor que foram verificados os maiores ganhos para a massagem".
Outros começaram a examinar o papel da massagem na libertação de endorfinas, substâncias químicas analgésicas, mais potentes do que a morfina, que são produzidas pelo cérebro em resposta a determinados estímulos, inclusive a massagem. No final dos anos de 1980, Melzack propôs uma teoria para explicar essa libertação de endorfina, no prestigiado jornal Clinics in anesthesiology. A sua teoria da hiper-estimulação analgésica foi a primeira nas décadas recentes, inspirada por descobertas que dizem respeito à massagem. Ela argumentava que determinados estímulos sensoriais intensos, como a punção por meio de uma agulha ou a exposição à pressão ou frio extremo, quando aplicados próximo ao local de um ferimento, enviavam um sinal ao cérebro por um canal mais rápido do que aquele usado pelo sinal da dor que estava a tentar tratar, rompendo assim a própria dor. Talvez seja esse o motivo pelo qual os antigos homens e mulheres se raspavam com pedras.

O futuro da massagem
O papel da massagem e dos métodos relacionados de trabalho corporal está a expandir-se de forma acelerada. Hoje em dia, a massagem tem validação suficiente para justificar o seu uso por parte do público, além dos profissionais do sistema de saúde. Ocorreu uma explosão de informação e consciência. O futuro determinará a maneira como a profissão vai responder às necessidades criadas pelo seu sucesso.
Intervenções em saúde mental que usam a massagem vulgarizam-se. Alguns planos de saúde e sistemas de cuidados administrados estão a tentar encontrar maneiras de incluir a terapia de massagem entre os serviços passíveis de cobertura.
Nas áreas de bem-estar e de serviço pessoal, os SPA’s levam a arte do tratamento ao público.
Clínicas de massagem que se concentram na massagem para o bem-estar estão a tornar-se lugar comum, assim como os profissionais da massagem no ambiente da empresa.
À medida que o mundo se torna uma comunidade global, a troca de informação sempre crescente, enriquecerá a base de conhecimento da massagem. A exploração de antigos métodos de cura revelará a sabedoria e a validade científica de uma abordagem de corpo/mente/espírito para o bem-estar.